Ter lordose é normal: como é a anatomia normal da coluna

"Você tem lordose" — dito assim, parece um diagnóstico. Parece que algo está errado. Mas a verdade é que toda pessoa saudável tem lordose. Sempre teve. E sempre deve ter.

O problema não é ter lordose. O problema é quando ela está aumentada, diminuída ou associada a outras alterações que causam sintomas. Para entender isso, é preciso antes entender como a coluna vertebral é construída — e por que ela tem a forma que tem.

O Dr. Guilherme, cirurgião especialista em coluna, explica a anatomia normal da coluna de forma clara e acessível.

A coluna vista de lado não é reta — e não deve ser

Essa é a primeira coisa que surpreende a maioria dos pacientes. Vista de frente, a coluna é praticamente reta. Mas vista de lado, ela tem curvaturas — e essas curvaturas não são defeitos. São projetos.

A coluna vertebral humana evoluiu com essas curvaturas para cumprir duas funções aparentemente contraditórias: ser rígida o suficiente para sustentar o peso do corpo e proteger a medula e os nervos, e ser flexível o suficiente para absorver impactos e permitir o movimento. As curvaturas são o mecanismo que torna isso possível — funcionando como molas que distribuem e dissipam as forças que agiriam diretamente sobre os discos e as vértebras se a coluna fosse reta.

Quantas curvaturas a coluna tem?

A coluna vertebral adulta tem quatro curvaturas no plano sagital — vistas de lado:

Lordose cervical — a curvatura da região do pescoço, côncava para trás. É ela que permite que a cabeça fique equilibrada sobre o tronco sem exigir um esforço muscular constante enorme. Uma cabeça adulta pesa entre 5 e 7 quilos — sem a lordose cervical para posicioná-la adequadamente, os músculos do pescoço teriam que trabalhar incessantemente para sustentar esse peso.

Cifose torácica — a curvatura da região do tórax, convexa para trás. É o arredondamento natural das costas na altura das costelas. Como já explicamos no artigo sobre a doença de Scheuermann, ela é normal até 50 graus. É a única curvatura que já está presente ao nascimento — o bebê nasce em cifose total, em posição fetal.

Lordose lombar — a curvatura da região entre o tórax e a pelve, côncava para trás — ou seja, com a convexidade voltada para a frente. É a curva que forma o "encaixe" da região lombar, aquele afundamento que se vê nas costas logo acima do quadril. É ela que a maioria das pessoas chama simplesmente de "lordose" — mas ela existe em todo mundo.

Cifose sacral — a curvatura do sacro e do cóccix, convexa para trás e praticamente fixa, pois essas vértebras são fundidas. Ela fecha a base da coluna e completa o equilíbrio do conjunto.

Como a coluna é construída por dentro?

A coluna vertebral é formada por 33 vértebras no total — embora em adultos esse número seja efetivamente menor, porque as vértebras do sacro e do cóccix se fundem durante o desenvolvimento.

A distribuição é a seguinte:

  • 7 vértebras cervicais — da base do crânio até os ombros, identificadas como C1 a C7
  • 12 vértebras torácicas — na altura do tórax, de T1 a T12, cada uma articulada com um par de costelas
  • 5 vértebras lombares — na região lombar, de L1 a L5, as maiores e mais robustas da coluna
  • 5 vértebras sacrais — fundidas formando o sacro, que se articula com a pelve
  • 4 vértebras coccígeas — fundidas formando o cóccix, o "osso da bunda"

Cada vértebra, da cervical à lombar, tem uma anatomia básica semelhante: um corpo vertebral na frente — a parte mais volumosa, que suporta o peso —, um arco posterior que envolve e protege o canal vertebral, e processos espinhosos que servem de ponto de inserção para músculos e ligamentos e de articulação com as vértebras vizinhas.

O que são os discos intervertebrais?

Entre cada duas vértebras — da segunda vértebra cervical até o sacro — existe um disco intervertebral. São 23 discos no total, e eles são fundamentais para o funcionamento da coluna.

Cada disco tem duas partes distintas com funções complementares:

O núcleo pulposo fica no centro do disco — é uma estrutura gelatinosa, rica em água, que funciona como um amortecedor hidráulico. Quando a coluna recebe uma carga, o núcleo distribui essa pressão de forma uniforme para todas as direções.

O anel fibroso envolve o núcleo — são camadas concêntricas de fibras de colágeno, organizadas em ângulos alternados, que contêm o núcleo e resistem às forças de torção e compressão. É quando as fibras do anel fibroso se rompem que o núcleo pode se projetar para fora — o que chamamos de hérnia de disco.

Os discos respondem por cerca de um quarto da altura total da coluna vertebral. É por isso que uma pessoa é ligeiramente mais alta pela manhã do que à noite — durante o dia, sob a carga do peso corporal, os discos perdem um pouco de sua hidratação e comprimem levemente. Durante a noite, deitados, eles reidratam e recuperam a altura.

O que sustenta e move a coluna?

A coluna não funciona sozinha. Ela é sustentada, estabilizada e movimentada por um sistema complexo de músculos e ligamentos que trabalham em conjunto.

Os ligamentos são estruturas passivas — eles não se contraem, mas resistem ao movimento excessivo e protegem as estruturas nobres da coluna. Os principais são o ligamento longitudinal anterior, que corre pela frente dos corpos vertebrais, o ligamento longitudinal posterior, que corre por dentro do canal vertebral, o ligamento amarelo — que já explicamos em artigo anterior —, e os ligamentos interespinhosos e supraespinhosos na parte de trás.

Os músculos são a parte ativa do sistema. Podem ser divididos em dois grupos com funções distintas:

Os músculos globais — como o eretor da espinha e o quadrado lombar — são maiores, mais superficiais e responsáveis pelo movimento e pela força. São os músculos que se contraem quando você faz um esforço visível.

Os músculos locais — como o multífido e o transverso do abdômen — são menores, profundos e responsáveis pela estabilidade segmentar. Eles trabalham de forma contínua e quase imperceptível, mantendo cada vértebra no lugar durante o movimento. São esses músculos que se desativam com o sedentarismo — e cuja fraqueza está na origem de grande parte das dores lombares crônicas.

O que passa pelo canal vertebral?

O canal vertebral — o túnel formado pelos arcos posteriores de todas as vértebras — é a estrutura de proteção mais importante da coluna. É por dentro dele que passam a medula espinhal e as raízes nervosas.

A medula espinhal começa no crânio e desce pelo canal vertebral até aproximadamente o nível de L1-L2 — a primeira ou segunda vértebra lombar. Abaixo disso, o canal vertebral não contém mais a medula, mas sim um feixe de raízes nervosas chamado cauda equina — em referência à sua semelhança com uma cauda de cavalo.

Em cada nível vertebral, um par de raízes nervosas sai pelo forame intervertebral de cada lado — como já explicamos no artigo sobre o forame. Cada raiz é responsável por uma região específica do corpo. É por isso que uma hérnia de disco em L4-L5 causa sintomas diferentes de uma hérnia em L5-S1 — cada uma comprime uma raiz diferente, com territórios diferentes.

Então o que é "lordose aumentada"?

Tendo entendido que a lordose é normal, fica mais fácil entender quando ela é um problema.

A lordose lombar é considerada aumentada — hiperlordose — quando ultrapassa cerca de 60 graus no adulto. Isso pode acontecer por fraqueza da musculatura abdominal, encurtamento dos flexores do quadril, excesso de peso abdominal, uso crônico de salto alto ou simplesmente por predisposição postural e fatores genéticos.

A hiperlordose aumenta a carga sobre as articulações facetárias e os ligamentos posteriores da coluna — e pode contribuir para dor lombar, especialmente em extensão.

Por outro lado, a lordose diminuída — retificação da lordose lombar — também é um problema (esse muito mais importante do que uma lordose aumentada). Uma coluna lombar reta perde sua capacidade de amortecimento e sobrecarrega os discos intervertebrais de forma desproporcional.

O equilíbrio entre as curvaturas é o que define uma coluna saudável — não a ausência delas.

Agende uma consulta com o Dr. Guilherme

Se você tem dúvidas sobre a sua postura, sobre o que os termos do seu laudo significam ou sobre se as curvaturas da sua coluna estão dentro da normalidade, o Dr. Guilherme oferece uma avaliação completa — explicando tudo com clareza, sem alarmismo e sem pressa para indicar tratamentos desnecessários.

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Entender como sua coluna funciona é o primeiro passo para cuidar dela do jeito certo.

Este artigo é de caráter informativo e não substitui a consulta médica. Cada caso é único e deve ser avaliado individualmente por um profissional qualificado.

Dr. Guilherme Costa

Ortopedia e Traumatologia
Cirurgia de Coluna

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