Quando uma pessoa recebe o diagnóstico de escoliose, uma das primeiras perguntas é: “Qual é o tratamento?”
A resposta depende de vários fatores.
Uma curva pequena em uma criança que ainda vai crescer muito não é tratada da mesma forma que uma curva maior em um adolescente próximo do fim do crescimento.
Também existe diferença entre escoliose idiopática do adolescente, escoliose congênita, neuromuscular e escoliose degenerativa do adulto.
De maneira geral, as estratégias podem incluir observação, uso de colete em situações específicas, exercícios voltados à função e, em curvas mais avançadas ou acentuadas, cirurgia.
O objetivo é evitar decisões baseadas apenas em um número isolado.
O que determina o tratamento?
O especialista considera idade, causa da escoliose, tamanho e localização da curva, maturidade esquelética, velocidade de progressão, sintomas e quantidade de crescimento restante.
Em adolescentes, dois pacientes com a mesma medida podem receber recomendações diferentes se um ainda estiver no início do crescimento e o outro já estiver próximo da maturidade óssea.
A chance de progressão é uma peça central do planejamento.
Escoliose pequena precisa de tratamento?
Curvas pequenas são apenas acompanhadas.
A observação significa realizar consultas periódicas (normalmente a cada 6 meses) e, quando necessário, exames para verificar se a curva está estável ou aumentando.
Isso é especialmente importante durante fases de crescimento rápido.
Acompanhamento não significa “não fazer nada”.
É uma decisão ativa de monitorar a evolução antes de indicar uma intervenção que talvez nunca seja necessária.
Quando o colete é indicado?
O colete é utilizado principalmente em crianças e adolescentes que ainda estão crescendo e possuem curvas com risco de progressão.
O objetivo principal não é deixar a coluna completamente reta. É tentar impedir que a curva aumente enquanto o paciente cresce.
A indicação depende do tamanho da curva (curvas acima de 25 graus, porém menores do que 40 graus) e da maturidade esquelética (em pacientes com ossos maduros a probabilidade de progressão das curvas é muito menor do que em pacientes com ossos imaturos e com potencial de crescimento), entre outros fatores.
Por isso, não é adequado comprar um colete por conta própria.
Quantas horas por dia é preciso usar colete?
Isso varia de acordo com o tipo de colete, curva e protocolo indicado.
Os coletes mais comuns são utilizados por muitas horas ao dia. Idealmente, acima de 23 horas por dia. Basicamente, retirá-lo apenas para tomar banho.
A adesão é importante para o resultado, mas deve ser acompanhada por equipe especializada.
O ajuste também é fundamental: um colete que não está adequadamente confeccionado ou adaptado pode não oferecer o efeito esperado.
Com o controle da curvatura e progressão da maturidade óssea o tempo de uso do colete pode ser gradualmente reduzido para 16 horas por dia até o encerramento do tratamento.
Fisioterapia trata escoliose?
Fisioterapia e exercícios podem ajudar em condicionamento, consciência corporal, mobilidade, força e controle de sintomas.
Existem abordagens específicas de exercícios para escoliose utilizadas por profissionais treinados.
Entretanto, exercícios não devem ser vendidos como garantia de “endireitar” qualquer curva estrutural.
O objetivo varia conforme o caso.
Em alguns pacientes, a fisioterapia atua como complemento importante, mas não substitui colete ou cirurgia quando existe uma indicação clara para essas estratégias.
Academia pode piorar escoliose?
Em geral, a atividade física não deve ser automaticamente proibida.
Muitos pacientes com escoliose podem praticar esportes e musculação.
O programa deve considerar sintomas, condicionamento, padrão da curva e eventuais restrições específicas.
Movimento e fortalecimento adequados podem contribuir para saúde e capacidade física.
O medo da atividade não deve ser parte do tratamento sem motivo concreto.
Escoliose tem cura?
A resposta depende do que se entende por “cura”.
Uma curva estrutural não é simplesmente apagada por exercícios.
Porém, muitas pessoas com escoliose levam uma vida ativa, com pouca ou nenhuma limitação.
O tratamento busca controlar progressão quando necessário, preservar função, reduzir sintomas e manter o equilíbrio da coluna.
Em pacientes operados, a cirurgia pode corrigir parte significativa da deformidade, mas isso não significa transformar a coluna em uma estrutura completamente “nova” e “reta”, e isso não é de fato necessário.
Quando a cirurgia é indicada?
Na escoliose idiopática do adolescente, cirurgia costuma ser considerada em curvas maiores e com risco relevante de continuar progredindo.
A decisão leva em conta magnitude da curva, crescimento, equilíbrio corporal, padrão da deformidade e contexto do paciente.
Em adultos, a indicação é diferente.
Dor incapacitante, desequilíbrio, compressão nervosa e falha do tratamento conservador podem ter grande peso.
Portanto, um mesmo número de graus não tem o mesmo significado em todas as idades.
Qual cirurgia é feita para escoliose?
A cirurgia mais conhecida é a artrodese com instrumentação, utilizando implantes para corrigir e estabilizar segmentos da coluna.
Existem diferentes técnicas e estratégias de correção.
A extensão da cirurgia depende do padrão da curva e do planejamento.
Em pacientes muito jovens, existem ainda procedimentos que buscam controlar a deformidade preservando crescimento – técnica chamada de growing rod ou hastes de crescimento.
O planejamento é individual.
Toda escoliose piora?
Não.
Muitas curvas permanecem pequenas e estáveis.
O risco de progressão é maior em determinadas situações, especialmente durante crescimento rápido e quando a curva já apresenta determinada magnitude.
É exatamente por isso que o diagnóstico precoce pode ser útil: ele permite acompanhar uma curva antes que ela se torne maior.
O tratamento em adulto é diferente?
Sim.
No adulto, escoliose pode ser continuação de uma curva da adolescência ou surgir associada à degeneração da coluna.
Os sintomas podem incluir dor lombar, rigidez, perda de equilíbrio e compressão nervosa.
O tratamento pode envolver atividade, fortalecimento, fisioterapia, controle de dor e procedimentos selecionados.
Cirurgia é considerada apenas em situações específicas.
Qual o papel da radiografia?
Radiografias em pé permitem avaliar a magnitude e o padrão da curva, além do equilíbrio da coluna.
O ângulo de Cobb é uma medida utilizada para acompanhar a escoliose e o planejamento do tratamento.
Comparar exames ao longo do tempo ajuda a identificar progressão.
A decisão não deve ser baseada em uma única radiografia fora do contexto clínico.
É possível evitar cirurgia?
Muitos pacientes nunca precisarão de cirurgia.
Em crianças e adolescentes selecionados, acompanhamento adequado e colete podem reduzir a chance de progressão até faixas em que uma operação seria considerada.
Mas nem toda curva responde da mesma forma.
O mais importante é identificar o risco individual e não atrasar acompanhamento quando a curva está crescendo.
Perguntas frequentes
Toda escoliose precisa usar colete?
Não. O colete é indicado apenas para determinados pacientes com curvas leves a moderadas (acima de 25 graus e abaixo dos 40 graus), especialmente durante o crescimento.
Fisioterapia substitui o colete?
Não quando existe indicação formal de colete para controle de progressão. A fisioterapia pode atuar como complemento ao tratamento.
Com quantos graus a escoliose é operada?
Não existe um único número que determine cirurgia em todos os pacientes. Em adolescentes, curvas por volta de 45 graus frequentemente entram na discussão cirúrgica, mas a decisão é individual (pois o potencial de crescimento também deve participar da decisão terapêutica)
Quem tem escoliose pode praticar esporte?
Na maioria dos casos, sim. Restrições dependem da condição individual e devem ser orientadas pelo médico.
Conclusão
O tratamento da escoliose depende muito mais do que simplesmente saber quantos graus existem na radiografia.
Idade, crescimento restante, progressão e tipo de curva são fundamentais.
Alguns pacientes precisam apenas de acompanhamento. Outros podem se beneficiar de colete. Cirurgia é reservada para situações específicas.
O Dr. Guilherme Costa é ortopedista especialista em cirurgia da coluna vertebral e realiza diagnóstico e acompanhamento de escoliose em São Paulo.
Se você ou seu filho recebeu diagnóstico de escoliose, agende uma avaliação para entender o grau da curva, risco de progressão e opções de tratamento.
